Comprar um bilhete, fazer uma reserva, embarcar em uma nova aventura. Procurar dicas sobre comidas, lugares e passeios. Arrumar as malas, pesquisar sobre o clima, dar o primeiro passo, enlarguecer a mente, acalentar a alma. Sempre enxerguei a vida como pequena demais para ser resumida em um quarto, um bairro, uma cidade. Cruzar fronteiras sempre estiveram nos meus planos e trair aquele amontoado de sonhos seria tornar-me alguém definitivamente muito diferente de quem eu sou hoje.

Contudo, embora a vontade de atravessar o limite e romper as barreiras geográficas sejam inerentes aos amantes da estrada, descobri na literatura uma forma de me transportar a lugares que me deixaram saudades e outros que ainda quero conhecer sem gastar quase nada. Dessa forma, quando o dinheiro é curto, existe bilhete mais barato, mala mais leve e lugares mais detalhados que talvez estando lá passariam despercebidos aos olhos e não teriam a mesma emoção se não lidos, relidos, grafados, estampados em letras garrafais e impressos na memória em forma de recordação doce de quem quer ir, já foi ou ainda não se decidiu.

Enquanto viciada por viagens, devo um muito obrigada aos escritores que me fazem e fizeram imergir em novos destinos sem sair do lugar e, por isso, selecionei três obras que me permitiram esta sensação e venho compartilhar com vocês.

 

Paris versus New York – Yahram Muratyan

Quando criança, queria desaparecer no atlas, ver de perto lugares distantes, imaginar alternativas para a vida que eu levava, viajar ainda mais longe para o Ocidente e me deslocar da cidade que minha família chamava de lar.

Yahram Muratyan

Paris Versus New York

Como o próprio nome do livro já diz, Paris versus New York é uma comparação explícita entre duas das maiores cidades do mundo feita pelo designer e artista gráfico francês, Yahram Muratyan. O artista mesclou períodos de sua vida entre as duas cidades para trabalhos e viagens e, inevitavelmente, deu início à comparação feita em seu primeiro blog Paris versus New York durante uma longa estadia em Nova York em 2010, que mais tarde virou o livro em questão.

Recheado de ilustrações minimalistas, porém cheias de critério e atentas às realidades das duas cidades, a obra de Muratyan te convida a mergulhar de cabeça em dois dos maiores pontos turísticos do mundo, onde com certeza você já quis estar.

Os desenhos são carregados de cores e humor e, apesar de conter pouco texto, as pequenas legendas alternadas às ilustrações dão um toque a mais e deixam as imagens mais divertidas, te fazendo compreender o necessário e te instigando sobre quando é que você vai poder tocar aquela realidade de perto.

A cada página, o livro provoca no leitor uma sensação diferente. Por ter tido a oportunidade de conhecer as duas cidades em tempos distintos, ao folhear o livro eu pude rir sozinha da comparação feita pelo autor e ainda me remeter às minhas próprias impressões acerca de cada lugar.

A comida, o transporte, as pessoas. Tudo é diferente nos mínimos detalhes e a discrepância entre as cidades vai ficando maior a cada página, onde as ilustrações são distribuídas da seguinte forma: à esquerda, Paris, e à direita Nova York.

Durante todo o livro o autor te provoca fazendo-o refletir sobre qual cidade é a sua preferida e qual se encaixa mais ao seu modo de vida. É praticamente impossível se manter indiferente a tantas comparações tão bonitas.

 

Eu já escolhi a minha. E você, qual das duas faz seu tipo?

 

Na Natureza Selvagem – Jon Krakauer

 

É nas experiências, nas lembranças, na grande e triunfante alegria de viver na mais ampla plenitude que o verdadeiro sentido é encontrado.

Christopher McCandless

 

Na natureza selvagemMinha experiência com o livro “Na Natureza Selvagem” foi após assistir ao filme de mesmo nome que me deixou extasiada em uma crise de choro profunda por três horas seguidas.

Com a emoção à flor da pele e sabendo que o filme havia sido baseado em fatos reais com o apoio de um livro-reportagem de mesmo nome, fui atrás da obra para conhecer mais sobre os detalhes da história que havia me comovido tanto.

O livro conta a história de Christopher McCandless, um jovem americano de família rica que após terminar a faculdade decide abandonar seus bens, família e uma carreira promissora em busca de um sentido para a vida. Sem dar notícias a ninguém e se apropriando do codinome “Alexander Supertramp”, Chris embarca em uma aventura rumo ao Alasca pegando carona com quem passasse, gastando muitas solas de sapato pelas estradas, trocando trabalho por um prato de comida e conhecendo pessoas incríveis que fazem toda a diferença na vida de um viajante.

Nada é mais maléfico para o espirito aventureiro do homem que um futuro seguro.

Christopher McCandless

A história de Chris, que tinha quase tudo para dar certo, se não fosse pela estupidez ou falta de juízo do personagem principal, termina em um final trágico. Dois anos mais tarde, após Chris embarcar na primeira e última aventura de sua vida, o rapaz é encontrado por dois caçadores totalmente sem vida e congelado dentro de um ônibus abandonado no Alasca. A causa da morte de Chris, inanição.

Ônibus onde Chris McCandless foi encontrado morto
Ônibus onde Chris McCandless foi encontrado morto

Você agora deve estar me perguntando o que te faria ler este livro sendo que eu já contei o final. Simples. Não é o final que dá sentido à obra, mas todo o contexto e as pessoas que Chris conhece ao longo de sua viagem.

A obra, retratada muito bem em um livro reportagem escrito pelo jornalista Jon Krakauer refaz o caminho de Chris até o Alasca. Remonta diálogos, possui um arsenal de cartas escritas e enviadas ao personagem principal e nos faz repensar nossa vida inúmeras vezes. Cheias de frases de valor, a discussão inspirada pela curta trajetória de McCandless na Terra é enraizada sob os pilares da liberdade, responsabilidade e valores afetivos.

Ao reviver os momentos de Christopher desde a sua rebeldia em abandonar a família até ele perceber que vai morrer, dá tempo de compreender o rapaz, perdoá-lo e ainda perpetuar o legado deixado por McCandless para outras gerações, que diz:

A felicidade só é verdadeira se for compartilhada.

Christopher McCandless

Afinal, o menino apesar de rebelde tinha um coração enorme. Foi contra o capitalismo e morreu por não se aguentar em padrões ditados pela sociedade e ir em busca do que e de onde acreditava estar a sua felicidade.

A história de Chris, particularmente, foi o estopim que me fez concretizar o sonho de percorrer a Europa em um mochilão sob a minha própria companhia. O legado deixado pelo jovem rapaz permanece comigo e me faz refletir acerca dos rumos da minha vida em diferentes momentos.

Comer, Rezar e Amar – Elizabeth Gilbert

comer rezar e amarComer, Rezar e Amar é uma autobiografia que deixa as viciadas em viagens como eu à beira de abandonar tudo e sair correndo mundo a fora. A questão é simples: o livro é encorajador, leve e de uma grandeza espiritual linda de se ler (e viver).

Recém-separada, a jornalista norte-americana Elizabeth Gilbert percebe que a vida que leva está muito longe da que um dia sonhou, decide abandonar o emprego e embarcar durante um ano rumo a três destinos diferentes em busca de sua felicidade: Itália, Índia e Indonésia. Irreverente, ainda vende à sua editora um livro sobre a aventura que ainda nem tinha começado a escrever, mas que mais tarde se tornaria “Comer, Rezar e Amar”.

A primeira parada de Liz é na Itália, onde se perde na comida, no vinho, nas amizades feitas e no charme dos italianos, que apesar de ser quase impossível, ela conseguiu permanecer ilesa. Deslumbrada pelo cenário em que estava inserida, ela prestava atenção em cada detalhe: as buzinas nas ruas, a forma agressiva com que os italianos falavam e ao aroma e sabor das pizzas que a fizeram engordar alguns quilos. Mas naquele momento, era a última coisa que Liz se preocupava. Ela só queria viver, comer e comprar jeans novos.

Até agora, no entanto, o que mais gosto de dizer em italiano é uma palavra simples, comum: Attraversiamo. Quer dizer: ‘vamos atravessar.’ Ela não tem nada demais. Mesmo assim, por algum motivo, causa-me um efeito poderoso… O a aberto e promissor da primeira sílaba, o r enrolado, o s tranquilizador e a interminável combinação ‘ii-aaaa-mo’ no final. Adoro essa palavra.

Elizabeth Gilbert

O segundo momento da aventura de Liz é narrado na Índia, um país precário que habita uma fé enorme.

Diferente de turistas que vão à passeio (inclusive esse é um dos destinos que me transportei e agora quero ver de perto), Liz se propôs em prestar serviço comunitário em troca de alojamento e comida (o que é muito comum em diversos lugares do mundo). O calor, os mosquitos e o trabalho pesado marcaram a história da autora neste período, principalmente porque ela olhava para os lados e tentava compreender como todas aquelas dificuldades tamanhas para ela não faziam diferença para quem estava ali completamente imerso na fé.

Com o passar dos dias, Liz percebe a grandeza daquele lugar, de suas atividades e do compromisso da oração. Este é um momento da história em que a autora descobre Deus em cada detalhe, diariamente, e se permite ir à próxima parada.

Mais leve, livre das preocupações, dúvidas e anseios que carregava na bagagem, na Indonésia, a autora desembarca com novos hábitos adquiridos na Índia e o bom humor herdado da Itália. Em busca de seu equilíbrio interno, o que ela não poderia contar é que no meio da sua aventura seria surpreendida pelo amor.

Os detalhes narrados na biografia te fazem sentir cheiro de pizza, entrar em comunhão com Deus e botar fé nas coisas e no amor.

No final das contas, talvez seja mais sábio se render à milagrosa abrangência da generosidade humana e simplesmente continuar dizendo obrigada para sempre e com sinceridade enquanto tivermos voz.

Elizabeth Gilbert

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Um beijo!