Hábitos saudáveis e roupas adequadas minimizam chances de infecção

*O nome da personagem é fictício para proteger sua identidade

“Tudo começou com uma coceira incômoda na vagina e quanto mais eu coçava, mais parecia que a intensidade aumentava”, relembra a cabeleireira Helena*, quando foi diagnosticada com candidíase vaginal aos seus 24 anos. A jovem, por nunca ter ouvido falar sobre a doença, acabou tornando um problema simples em um período sacrificante. “Eu tive medo e vergonha. Acreditava que tinha contraído alguma DST e, por isso, demorei a procurar um médico”, explica a cabeleireira.

A candidíase não é considerada propriamente uma doença sexualmente transmitida (DST), pois ela é fruto de uma infecção provocada pelo fungo Cândida albicans, que já existe naturalmente no organismo humano. “A doença pode ser sim transmitida por via sexual, mas não é o que acontece usualmente, porque a cândida é um fungo que já existe na flora vaginal e só se houver um desequilíbrio para ela se proliferar e apresentar os sintomas. Sobretudo, ela pode sim ser transmitida ao parceiro, se ele também estiver imunodeprimido”, explica a coordenadora da divisão de ginecologia e obstetrícia do Hospital Materno Infantil (HMI) de Goiânia (GO), Luciene Bemfica. Apenas em 15% dos casos da doença, a transmissão ocorre via relação sexual.

Com Helena, a infecção se deu depois de uma queda na imunidade. Após uma grave inflamação nas amídalas, ela precisou ser medicada com uma alta dosagem de antibióticos, o que provocou a morte de todas as bactérias do corpo dela, inclusive as necessárias para manter o equilíbrio da produção de Cândidas na flora vaginal. Com isso, a imunidade de Helena ficou baixa e o fungo da Cândida encontrou uma boa oportunidade para se proliferar. “Bactérias e fungos coexistem no trato vaginal de uma maneira equilibrada. Quando é rompido esse equilíbrio, ocorre o desenvolvimento de um microrganismo ou outro”, explica a ginecologista.

A situação enfrentada por Helena retrata a realidade de muitas mulheres em todo o mundo. De acordo com informações extraídas do Portal MD Saúde, três em cada quatro mulheres já tiveram ou terão candidíase pelo menos uma vez ao longo da vida, o que torna a doença muito comum, mas não menos delicada. As coceiras intensas na vagina mencionadas por Helena vêm acompanhadas de vermelhidão e inchaço, além de um corrimento esbranquiçado e gelatinoso e, em alguns casos, as pacientes reclamam também de ardência e dores no momento de urinar ou ter relações sexuais. “Quando a paciente tem esses sintomas, ela deve procurar ajuda médica para que seja devidamente tratada”, orienta Luciene.

Fatores de risco

Deixar a calcinha secando no banheiro aumenta os riscos de infecção por Cândida
Deixar a calcinha secando no banheiro aumenta os riscos de infecção por Cândida

De acordo com a médica, manter-se saudável é a melhor maneira de evitar a candidíase, pois toda doença que deixa o organismo com a imunidade baixa, é o espaço perfeito para o fungo se reproduzir. “Em casos mais simples, como gravidez ou ficar gripada, e em casos mais graves, pacientes diabéticas ou com HIV. Vale ressaltar que estar grávida, por si só, já é estar imunodeprimida e, consequentemente, um facilitador pra ter essa micose”, explica Luciene.

A médica também faz um alerta às roupas muito justas e que não deixam a vagina “respirar”. “Como todo fungo, ele também gosta de lugares mais escurinhos, mais úmidos. Então, usar roupas apertadas e com material sintético, permanecer com o biquíni molhado por muito tempo, roupas de academia, tudo isso leva a esse ambiente propício ao desenvolvimento e multiplicação da Cândida”, aconselha a ginecologista.

Outra dica que Luciene também dá é quanto a deixar as calcinhas secando no banheiro. “Por ser um ambiente úmido, é também um facilitador para a proliferação da candidíase”, explica.

Tratamento

A candidíase é a segunda infecção vaginal mais prevalente nas mulheres e, por isso, há grandes chances de algumas pacientes se infectarem mais de uma vez, o que leva a um questionamento: “Candidíase tem cura”?

A resposta é sim, visto que existe uma gama de medicamentos com preços, posologia e manuseio diferentes. Mas, assim, como outras doenças, ela pode voltar em uma outra fase da vida e cabe tratar novamente. “A Cândida faz parte do nosso trato, o importante é que ela não se multiplique. Como a gente tem uma gripe e a gripe cura, podemos adquirir a candidíase mais de uma vez e sempre que acontecer essa proliferação a gente vai tratar”, exemplifica a ginecologista.

O tratamento é feito com remédios antifúngicos capazes de atingir de 80% a 90% de eficácia. Entre eles, comprimidos via oral ou vaginal e pomadas de uso tópico para pacientes que apresentam algum tipo de restrição a medicamentos específicos.

Para dar início ao tratamento é importante que a mulher busque ajuda médica, pois, por se tratar de antifúngicos, os medicamentos precisam de receita específica. Para as mulheres que não têm condições financeiras, Luciene relembra que além dos genéricos, a rede pública também oferece medicamentos para o tratamento da candidíase.

Quanto a soluções caseiras, a médica é clara ao enfatizar que não existem comprovações científicas. “Tomar iogurte com lactobacilos por via oral, por via vaginal, comer ou passar alho na vagina, aplicações de vinagre, aplicação de suco de limão, comer maçã, medicamentos ricos em ômega 3, dentre outros. Isso tudo é amplamente difundido, mas não há nenhuma comprovação e nenhuma evidência científica de que esses tratamentos caseiros funcionem” conclui Luciene.