Pensar somente em si tem se tornado uma realidade cada vez maior e cuidar do próximo é uma missão para poucos

Madre Teresa de Calcutá e Maria Rita de Souza, mais conhecida como irmã Dulce, foram grandes exemplos de mulheres missionárias na década de 80, ambas indicadas ao prêmio Nobel da Paz. Madre Teresa fundou casas religiosas por toda a Índia e em outros países. Ela conseguiu visibilidade em seu trabalho devido à sua simplicidade e dedicou toda a sua vida a cuidar dos pobres. Assim como a irmã Dulce que, desde os 13 anos, acolheu mendigos e doentes em sua casa e, mais tarde, chegou a invadir lugares abandonados para ter mais espaço para os seus abrigados. Irmã Dulce morreu aos 77 anos, no ano de 1992. Em 1997, aos 87 anos, foi a vez de madre Teresa. Mas será que as mulheres missionárias estão somente no passado? E afinal, o que é preciso para se tornar uma?

Madre Teresa de Calcutá, missionária da igreja católica.
Madre Teresa de Calcutá, missionária da igreja católica.

 

Irmã Dulce, também missionária da igreja católica.
Irmã Dulce, também missionária da igreja católica.

De acordo com a etimologia missionária é uma palavra derivada do latim missionariu, que significa “aquele que é mandado para realizar uma tarefa”, e de missio, que quer dizer “ato de enviar”. Considerado um trabalho que muitas vezes envolve uma renúncia da vida pessoal para se dedicar ao outro. Entretanto, muitos confundem missões com atividades em regiões internacionais, como o Médicos Sem Fronteiras e o Pro Angola, e se esquecem de que essas ações podem ser regionais, estaduais, ou até mesmo no bairro em que moram.

A psicóloga Elzi Nascimento, diretora da área da família da Federação Espírita de Goiás, por exemplo realiza um trabalho que busca levar apoio e conhecimento ao núcleo familiar em todas as suas dimensões. “Todas as pessoas têm que considerar que elas vivem em comunidade, em contato com o outro e você não poderá ser feliz pensando só em si mesmo, apesar de ser absolutamente normal que você veja interesse no seu sucesso, mas que considere também o outro”, afirma a psicóloga.

Elzi tem grande participação nos trabalhos sociais no meio espírita, assim como a pedagoga Elzita Melo Quinta, ambas fazem parte do Grupo Espírita Allan Kardec onde funciona a  sala de costura Maria João de Deus, aberta em 1970. O nome da sala foi escolhido a pedido do médium Chico Xavier, em homenagem à mãe dele – Chico Xavier foi um grande exemplo de missionário e acreditava que a caridade era a mais pura emanação do próprio Criador, ele é reconhecido como o maior “líder espiritual” do Brasil, sendo uma das personalidades mais admiradas e aclamadas no país – funciona em um centro espírita de Goiânia desde 1982. “É um trabalho desenvolvido com pessoas que estão em casa, às vezes com necessidade de ocupar as suas mãos e este trabalho funciona como uma terapia ocupacional, em que jovens, senhoras, pessoas de várias idades, que não precisam saber costurar, mas que se dedicam ao trabalho de confecção para enxovais de recém-nascidos carentes”, conta Elzita Melo.

Elzi, a terceira mulher da esquerda para direita e Elzita, primeira mulher dao lado direito.
Elzi, a terceira mulher da esquerda para direita e Elzita, primeira mulher do lado direito.

Para a psicóloga, as pessoas se habituam a excluir o outro, pensando que a partir do momento em que ela se dedicar a alguém, ela estará tirando o tempo que ela tem para ela mesma, e se esquecem do benefício da caridade para o ser humano. “Quanto mais você dá, quanto mais você se interessa, quanto mais você se preocupa, quanto mais você percebe, quanto mais você sente a essência do outro, mais você se enriquece”, explica. Ela diz ainda que as pessoas ficam mesmo receosas e pensam que além de estarem perdendo seu tempo, que estão sendo exploradas pelo outro, se esquecendo da importância do trabalho social.

Participante do grupo de costura Maria Mãe de Deus.
Participante do grupo de costura Maria Mãe de Deus.

Elzi e Elzita se dedicam também a um outro trabalho com jovens espíritas no Encontro de Evangelizadores Através da Arte (EEVAA), da Associação Campo da Paz (GO) – evento que acontece há 28 anos – com a intenção de conscientizar esses jovens sobre a importância da caridade e evangelização. “Realizamos trabalhados de forma doutrinária, para fazer com que a vivencia do belo e do bem aconteça de uma forma tocante em todos os corações e para que eles tenham um enquadramento de uma missão de maior responsabilidade de aspecto social da própria vida”, afirma Elzita.

EEVAA 2016. Jovens reunidos No auditório do Centro Espírita Maria de Nazaré, na Associação Campo da Paz.
EEVAA 2016. Jovens reunidos No auditório do Centro Espírita Maria de Nazaré, na Associação Campo da Paz.
Irmã Dorinha junto com as crianças do projeto.
Irmã Dorinha junto com as crianças do projeto.

Irmã Dorinha também trabalha com jovens e sabe da importância de ajudar o próximo. Ela faz atividades com famílias carentes no estado de Goiás, no Movimento de Adolescentes e Criança do Estado de Goiás, uma das extensões da Arquidiocese de Goiânia -circunscrição eclesiástica católica no estado de Goiás – há quase dez anos, quando decidiu virar freira, aos 40 anos. “Nós trabalhamos aqui numa comunidade muito carente, procuramos viver na simplicidade como todo mundo, para que a gente possa ter uma aproximação maior das pessoas e, assim, ensiná-las a serem protagonistas de suas histórias. Para que não sejamos as promotoras dos benefícios da vida de cada uma delas, mas que elas mesmas se promovam” ressalta. Ela executa o projeto de formação da Escola Bíblica com Adolescentes e Crianças, ajudando na consciência crítica e trabalhando com eles os temas da vida cotidiana. Para ela, hoje falta muito espaço para crianças falarem das suas vidas, porque estão muito sós, já que só recebem o que os outros vão mostrando pra elas, a partir da televisão, do celular, da mídia em geral e dos comentários que escutam, mas não têm espaço para falarem. “Então estamos abrindo esse espaço e isso tem ajudado muito as crianças e suas famílias também”, esclarece a irmã.

Dorinha também trabalha com um grupo de autoajuda para mulheres, na intenção de fazerem com que elas descubram os seus valores como seres humanos, buscando também se autopromoverem. Para ela, o mais importante de ajudar alguém é perceber que esse alguém ajudado, ao mesmo tempo, pode fazer o mesmo por outras pessoas, como uma corrente. “Isso pra mim é o mais importante de fazer o bem para o outro, porque quando uma pessoa recebe esse bem, ela nunca guarda só pra ela, ela sempre tem a preocupação de partilhar”, avalia.

Jovens e crianças do projeto.
Jovens e crianças do projeto.
Marina em sua visita ao encontro de indígenas em Goiânia.
Marina em sua visita ao encontro de indígenas em Goiânia.

Um outro exemplo de mulher que se dedica para ajudar o outro é a Marina Costa Braga, coordenadora do Pro Humanos Goiânia, Ong espalhada pelo Brasil com a missão de levar qualidade de vida por onde passa. É preciso realmente ter muito amor para fazer esse trabalho de se doar ao outro, que em primeiro instante é um desconhecido. A minha vida e minha agenda são baseadas neste trabalho, os compromissos que faço eu não falho”. Marina se dedica tanto ao trabalho que adiou a data do aniversário da filha por conta de um compromisso com a caridade, e acredita que falta uma maior preocupação da sociedade em ajudar o próximo.  “Muitas vezes a sociedade não quer ver o que não pertence ao seu meio social, o que não está na mídia, e quando ela se depara com a realidade, está mais preocupada em apontar um culpado do que estender a mão”, comenta.

Além do trabalho social com pessoas, existem também os trabalhos com os animais, como o que é feito por Camila Amorim (29), uma das diretoras do Grupo Miau Au Au. “Tudo começou com o exemplo da minha mãe: ela pegava esse animal abandonado na rua e levava pra casa, em uma época que não era tão acessível o tratamento veterinário. Mas ela pegava aquele animal que estava no nosso caminho e a minha vontade era um tanto maior. Então, quando eu comecei a trabalhar e a ter meu próprio dinheiro, resolvi expandir”, relata.

Camila Amorim, uma das fundadoras do projeto Miau Au Au.
Camila Amorim, uma das fundadoras do projeto Miau Au Au.

Camila não considera essa ação como proteção animal, mas como bom senso. Ela analisa que é uma ação que todo ser humano deveria fazer para um ser indefeso e que isso deveria ser uma atitude normal. O grupo Miau Au Au é um projeto social que trabalha pela redução do abandono e dos maus tratos e também com o intuito de acabar com a superpopulação de animais que existem na cidade de Goiânia. Por este motivo, o grupo também promove eventos de adoção.“As pessoas e os nossos governantes precisam entender que isso é uma questão de saúde pública, que bichos nascem e morrem nas ruas, debaixo dos nossos narizes todos os dias, por fome, desidratação, por falta de abrigo, por doenças”, lamenta.

A conscientização de ajudar o outro pode ser difícil. Porém, segundo Elzita Melo, qualquer pessoa, independentemente do cunho religioso, só tem a receber ajudando quem precisa. Ela explica que ao sair de si mesmo para auxiliar os outros, não se exercita somente o altruísmo, mas se desenvolve possibilidades e recursos para fazer sempre mais. “É acima de tudo, um exercício de interacionamento fundamental para que haja a paz e para que a pessoa se sinta útil”, comenta.

Grupo Miau Au Au, de Goiânia.
Grupo Miau Au Au, de Goiânia.

Camila Amorim – MIAU AU AU

“É uma realização pessoal na vida de cada uma de nós, porque a gente faz mesmo por amor. A sensação de ver o bicho que a gente tirou da rua em situação de maus tratos, de vê-lo adotado, de receber uma foto do adotante dele feliz, em casa, sendo bem tratado, não tem preço. É realmente o que paga todo o desgaste anterior. Além disso, há esperança do nosso sonho realizar, que é sair um dia na rua e não ver bicho em situação de maus tratos, nem abandono. Sempre gosto de reafirmar que a solução para o abandono e para os maus tratos é a castração e que amigo não se compra. Porque, a partir do momento que a gente compra, a gente está incentivando que criadores continuem fabricando mais pets e se ele tem um casal, ele explora essas vidas, é um negócio”.

Irmã Dorinha

“Vivemos em um ambiente de pessoas carentes, de pessoas que necessitam desse apoio. Elas aprendem muito a compartilhar com gratuidade e com muita sinceridade. Isso é muito importante. Isso faz com que a gente se sinta bem em proporcionar esse espaço onde as pessoas possam se sentir acolhidas e protegidas”.

Elzi Nascimento

“O homem precisa da interação e da comunicação, para se completar como criatura humana”

Elzita Melo

“Quanto mais você interage com o outro, quanto mais você estende a sua mão na horizontal, mais você recebe na vertical. A sua utilidade tem o tamanho da sua responsabilidade social, fazendo o melhor ao seu alcance”

Marina Costa Braga

“O trabalho voluntário é levar amor para quem você ajuda, mas não é aquele amor de  só dizer “eu te amo”, é se importar, dar carinho, é abraçar a causa. É rir e chorar junto com aquela pessoa. É lutar por algo que ela esteja precisando, como comida, cadeira de rodas, ou às vezes só um abraço. Esse é um trabalho muito gratificante, porque às vezes você vai acompanhar a vitória de uma pessoa, é impagável você conhecer uma criança debilitada, na cadeira de rodas, e depois encontrá-la correndo para te abraçar”.

Mãe missionária

A mulher missionária que marcou minha vida foi a minha mãe Aldaíza Maia, que sonhava em viver num mundo de paz. Ela fundou a ONG Centro de Educação Comunitária de Meninas e Meninos (CECOM), na intenção de ajudar as crianças e famílias menos favorecidas da comunidade do setor Jardim Nova Esperança, na cidade de Goiânia e dedicou sua vida a ele. O CECOM começou no ano de 1984 e segue até hoje com mais de 600 atendimentos diários, sendo uma ONG de referência nacional. Infelizmente, minha mãe faleceu em 2003 de infarto, mas seu sonho ainda vive e cresce nos corações dos futuros missionários.

Aldaíza Maia, de vermelho, com as crianças do CECOM.
Aldaíza Maia, de vermelho, com as crianças do CECOM.

Aldaíza Maia

“É uma comunidade grande de crianças, de adolescentes, de mulheres, homens excluídos de uma sociedade. Então, porque eles foram excluídos? Porque não existiam políticas públicas que atendessem essas famílias. E o que temos que fazer? Não é vir até aqui, dar o pão, isso e aquilo, mas também elaborar as políticas públicas para que esse atendimento seja de fato mais amplo e que esse atendimento gere cidadãos com direitos, construtores de valores”.