Blogueira reúne livros infantis que trazem protagonistas negras como forma de refletir sobre a diversidade da população brasileira e combater o preconceito racial

Já se falou em índia destemida, chinesa que vai à luta e, claro, as donzelas que sofrem nas mãos das madrastas más e que logo encontram o tal do príncipe encantado para ‘salvá-las’. Mas falar sobre a negra, em papel de destaque, é assunto que não ganha espaço não só no renomado mundo de Walt Disney. Mesmo no Brasil, onde os negros representam mais da metade da população, totalizando em 53,6%, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), eles quase nunca alcançam papéis longe das senzalas, cozinhas, favelas e cenários marginalizados.

Mas por que isto acontece?

A situação já é crítica por si só se pararmos para pensar na exclusão dos negros como um todo, mas pode ficar ainda pior se focarmos no gênero feminino. E não é que histórias inspiradoras contendo mulheres negras não existam. Muito longe disso. A verdade é que mais uma vez o racismo bate à porta e bane da sociedade qualquer destaque que a obra mereça ter, simplesmente pela cor de pele.

Tente olhar para trás, na sua infância, e recordar algum livro que você tenha lido e que contenha uma protagonista negra. Encontrou? Foi fácil?

A autora do blog ‘A mãe preta’, Luciana Bento, uma verdadeira apaixonada por livros, nunca se reconheceu em uma garota de histórias. Nunca teve a oportunidade. “Não lembro de nenhum livro infantil que eu tenha lido na minha infância com protagonistas parecidas comigo fisicamente, ou seja, com meninas negras”, disse à EBC.

Decidida a acabar ou, pelo menos, diminuir esta lacuna presente na cultura brasileira, Luciana decidiu reunir em um projeto intitulado como “100 meninas negras”, 100 livros infantis que trouxessem protagonistas negras e que ajudassem meninas como a que ela já tinha sido um dia, a ter um conto – mesmo que não fosse de fadas – para as inspirar. “As crianças não deveriam ler livros só com personagens brancas e depois saírem nas ruas e verem uma população multicolorida como a nossa”, explicou.

A coletânea, reunida por Luciana Bento, é postada em seu Trumblr, dia após dia, contendo a foto da capa, o nome do autor, ilustrador e um resumo da história do livro.

Luciana lê, cuidadosamente, cada livro antes de postar, e analisa se a história irá contribuir para a valorização e elevação da autoestima das meninas negras.

Entre as obras, uma questão recorrente é a valorização dos cabelos crespos associados à beleza e, para Luciana, a reprodução do conteúdo contribui significativamente para o fortalecimento da autoimagem da menina que se enxerga no livro.

Confira algumas das histórias:

Bia, Tatá e Ritinha em Cabelo Ruim!? Como assim? – Neusa Baptista Pinto

Protagonistas negras

Tatá acaba de chegar na escola nova é já está sofrendo preconceito devido ao seu cabelo crespo. Bia e Ritinha se unem a ela para juntas pensarem uma maneira de valorizar seus cabelos crespos e mostrar para escola que não tem nada de ruim e que cabelo crespo não é motivo de vergonha!”.

Melhores Amigas – Rosane Svartman

Protagonistas negras

Uma história muito bonita sobre diversidade e amizade, muito adequada pra abortar essas questões de preconceito racial entre as crianças e também sobre o valor da amizade, mostrando que diferenças não devem ser transformadas em desigualdades ou segregação”.

No País de Anahí – Maíra Suertedaray

Protagonistas negras

 

“As diferenças fazem o país de Anahí um lugar muito interessante. Nele vivem pessoas diferentes, com ideias diferentes, de todas as cores, de todas as formas. Quanta coisa para aprender, quantas ideias pra trocar! Lindo livrinho que fala de diversidade e respeito às diferenças, da necessidade de regras de convivência  e de respeito a esses limites para o bem-estar de todos”.

Omo-Oba: histórias de princesas – Kiusam de Oliveira

Protagonistas negras

Este é um livro que reconta mitos africanos, divulgados nas comunidades de tradição ketu, pouco conhecidos pelo público em geral e que reforçam os diferentes modos de ser em relação ao feminino. Neste livro, vemos as meninas Oiá, Oxum, Iemanjá, Olocum, Ajê Xalugá e Oduduá como princesas, em histórias de infância. Os seis mitos apresentados têm o objetivo de fortalecer a personalidade de meninas de todos os tempos”.

Cinderela e Chico Rei – Cristiana Agostinho e Ronaldo Simões Coelho

protagonistas negras

A história da Cinderela já é mais que conhecida e ainda encanta crianças de todas as idades. Mas, e se esse enredo fosse recontado se passando no Brasil, com nosso rosto, nossa pele negra, enfrentando monstros e bruxas que fazem parte de nosso imaginário cultural e com heróis, príncipes e princesas que também estejam inseridos em nossa cultura? Essa é a proposta de Cinderela e Chico Rei e de outros recontos dessa coleção da Mazza Edições”.

Os demais livros que compõem a lista podem ser encontrados aqui: 100meninasnegras.