Vegetarianismo é estilo de vida impensável para alguns, mas tem gente que sabe se virar sem carne

Motivações político-ambientais. Estes são os principais argumentos que diversas pessoas no Brasil e no mundo utilizam para aderirem ao estilo de vida vegetariano. O vegetarianismo é, basicamente, a exclusão de qualquer tipo de carne da alimentação, dentre outras variações que vão além dos hábitos alimentares. Para a professora Maiara Andraschko, de 24 anos, trata-se de não compactuar com a exploração de animais para nos servir.

A professora Maiara Andraschko, de 24 anos, tornou-se vegetariana há pouco mais de um ano (Foto: Arquivo pessoal)
A professora Maiara Andraschko, de 24 anos, tornou-se vegetariana há pouco mais de um ano (Foto: Arquivo pessoal)

“Quando assisti documentários, fiz leituras sobre o tema e me aprofundei no debate sobre como o agronegócio e a (in)consequente indústria da carne são prejudiciais ao planeta e à parcela mais explorada das pessoas, se tornou impossível para mim continuar comendo animais”, compartilha. A justificativa de Maiara e de tantas outras pessoas é louvável, mas a dúvida que paira para quem não é adepto ou não conhece tão a fundo a ideologia é: será possível ser saudável sem carne, leite e derivados?

De acordo com a nutricionista Patricia Trevenzol, apesar de ser mais difícil e requerer um planejamento, é possível. “Dá pra se ter uma alimentação equilibrada sim sendo vegetariano e é possível viver sem carne, leite e derivados”, salienta. Ela destaca ainda que se a dieta vegetariana não for bem trabalhada, a pessoa poderá ficar com deficiências. No entanto, Patricia ressalva que esta não é uma exclusividade do vegetariano.

A nutricionista avalia que se a pessoa é onívora, isto é, come de tudo, inclusive carne, mas não tem uma dieta balanceada, ela também terá malefícios, apenas um pouco diferentes do vegetariano. “Para o vegetariano ser saudável, ele tem que ter na dieta uma quantidade equilibrada das leguminosas, que são os feijões. Ele tem também que adequar a quantidade de carboidratos e, se necessário, fazer fontes de suplementação de cálcio, vitamina B12 e magnésio, que nem sempre se consegue na alimentação”, orienta.

Segundo Patricia, esta suplementação é necessária não porque existam nutrientes presentes na carne que sejam insubstituíveis, mas porque cada forma de alimentação apresenta pecualiaridades. Ela explica que a carne é fonte de aminoácidos – que são os constituintes das proteínas formadoras de nossas estruturas celulares – e, ao ingeri-la, as bactérias que a digerem são as que produzem a vitamina B12. “Então, como o vegetariano não tem essa fonte no seu cardápio, ele não terá essa forma de vitamina B12 disponível e acaba tendo que suplementar”, esclarece.

Com relação às substituições no cardápio, outro ponto a ser destacado é a necessidade de garantir fontes suficientes do metal ferro. Patricia informa que a carne é fonte do ferro tipo Heme – que participa dos processos de transporte de oxigênio nas células do sangue, as hemácias – e que ele é muito bem absorvido pelo nosso corpo. Já outros alimentos que apresentam ferro, como os vegetais de cor verde-escuro, são fontes de ferro não Heme e não são tão bem absorvidos. “Mas a gente pode substituir, fazendo o uso de fontes de vitamina C junto dessa fonte vegetal de ferro para que aumente a absorção da mesma e, em alguns casos, suplementar via oral”, ressalta.

Vegetariano é tudo igual? 

Não. Patricia Trevenzol enumera os seguintes tipos: o ovolactovegetariano, que faz o consumo de ovos, leite e derivados; o lactovegetariano, que não faz consumo de ovos, mas faz de laticínios; o ovovegetariano, que não faz consumo de lácteos de forma nenhuma, mas consome ovos; e o vegano, que não consome nenhum produto de origem animal, nem nada que não seja de origem vegetal. Alguns também não usam roupas ou produtos testados em animais, indo muito além da questão alimentar, que são os veganos estritos. Dentre estes, há os crudívoros, que só consomem alimentos crus, e os frutarianos, que se alimentam apenas de frutas.

Maiara Andraschko, vegetariana há pouco mais de um ano, tornou-se, há seis meses, vegana. A professora se considera ainda em transição para o veganismo. Ela conta que optou por parar de se alimentar e usar derivados de origem animal por acreditar na equidade das espécies. A princípio, Maiara aderiu a esta vertente vegetariana apenas se orientando por pesquisas na internet, mas, logo depois, sentiu a necessidade de procurar um profissional especializado em dieta vegetariana e vegana.

“As principais orientações foram acerca de quais são as folhas, leguminosas  e algas mais ricas em proteína e de como variar a dieta para que nenhuma vitamina e/ou nutriente faltasse ou ficasse em excesso”, comenta a professora. Esta necessidade de variar a dieta citada por Maiara é o que Patricia Trevenzol chama de sair da monotonia alimentar. Ela ensina que quanto mais for variado o cardápio do paciente, melhor é para o organismo do mesmo.

Maiara, que diz adorar preparar seu próprio alimento, sai desta monotonia com facilidade. “Não há dificuldade em encontrar alimentos. Em todo supermercado, feira de bairro ou mercadinho, sempre há comida de verdade: batata, arroz, feijão, folhas, frutas”, afirma. Ela propõe ainda que se engana quem acha que para ser vegetariano é preciso gastar mais dinheiro. “Ser vegetariano ou vegano sai bem mais barato do que não ser, porque o que é caro é carne e laticínios”, garante.

Para Patricia Trevenzol, a pessoa que é preocupada com a saúde, vegetariana ou não, não está gastando, está investindo. Conforme analisa a nutricionista, é a nossa alimentação que vai determinar se somos ou não saudáveis. “A saúde, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não é só a ausência de doença, ela é um bem-estar físico, emocional e social. Então, a gente realmente precisa cuidar da nossa saúde”, avalia.

Receitas funcionais

Por Patricia Trevenzol

Nutricionista clínica funcional, Patricia Trevenzol afirma que nos cardápios que elabora para vegetarianos, quando não vê nenhum tipo de sintoma que leve à restrição, coloca algum derivado de leite em sistema de rodízio. “É o mais saudável, para evitar a monotonia alimentar. Evito, ao máximo, o glúten, não retirando totalmente, mas colocando no sistema de rodízio também”, explica.

Seguindo a linha funcional, a nutricionista traz algumas dicas de receitas para quem é adepto do vegetarianismo ou se interessa por este estilo de vida.

Creme de abóbora (vegetarianismo) Pão de tofu (sem carne)

Hamburguer de quinoa (vegetarianismo) Panqueca de banana com ameixa (vegetarianismo) Gelatina de Chia (sem carne)

 

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