Tudo começou em 2012, quando a enfermeira Gislaine Gonzaga, de 39 anos, decidiu ir além de sua profissão. Trocou as luvas esterilizadas por equipamentos de fotografia e optou por cuidar não só da saúde física de suas pacientes, mas da saúde emocional, criando o Projeto Fotográvida.

Gislaine Gonzaga, a enfermeira que assume o papel de fotógrafa (Foto: Arquivo Pessoal)
Gislaine Gonzaga, a enfermeira que assume o papel de fotógrafa (Foto: Arquivo Pessoal)

Ela conta que trabalhava em um grupo de apoio à gestantes do Centro de Saúde da Família Jardim Guanabara, na região norte de Goiânia (GO), dando orientações às grávidas sobre os cuidados necessários e especiais que uma gravidez exige, quando percebeu nas participantes um alto nível de insatisfação por estarem ali. De acordo com Gislaine, a maioria estava passando por uma gravidez indesejada e, com isso, a baixa autoestima ganhava espaço naqueles encontros. “Todas estavam com a autoestima muito complicada. A gente via que elas não estavam bem. Algumas eram adolescentes. Outras, o companheiro estava preso. E em alguns casos, a grávida se encontrava em situação de abandono por parte da família”, conta a enfermeira.

Disposta a transformar a vida daquelas mulheres e fazê-las enxergar além do trauma vivido, Gislaine, que sempre foi apaixonada por fotografia, apostou que uma sessão de fotos ajudaria aquelas grávidas a mudarem a percepção de si mesmas e olharem para a gravidez de outra forma.

Naquela época, ela ainda não tinha máquina fotográfica e, muito menos, se arriscava a fazer os cliques. Foi então que, junto à outros profissionais da saúde, Gislaine contratou uma fotógrafa e, em um estúdio fotográfico improvisado no interior de um consultório médico, nasceu o primeiro trabalho do Fotográvida. “O efeito disso foi bombástico em relação à autoestima. A gente fez a maquiagem, levamos figurinos, coisas nossas e, daí para frente, não conseguimos parar”, compartilha.

Percebendo a realização de Gislaine em poder ajudar aquelas mulheres, o marido dela a incentivou comprando uma câmera fotográfica semiprofissional para ela dar vida ao Projeto. E, ao lado de outras colegas, a enfermeira que agora estava por trás das lentes, montou seu ‘time do bem’ e começou a transformar a vida de outras mulheres. “Não tem ninguém profissional naquilo que faz durante os ensaios. Eu não sou fotógrafa, eu nunca fiz um curso, se quer, de fotografia. A Célia, gestora de uma das unidades, assume o papel de figurinista”, explica Gislaine.

A professora do curso de enfermagem da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Luciene Cunha, também abraçou a causa e abre as portas de sua casa para que os ensaios possam ser realizados lá. Além disso, ela leva estudantes do curso para terem contato com o Projeto e ajudarem na maquiagem e cabelo das gestantes. “Maquiadoras, figurinista e fotógrafa. É tudo gente comum, da equipe mesmo (sic)”, conta Gislaine orgulhosa.

E o Projeto que começou tímido e hoje já contemplou mais de 40 mulheres grávidas, tornou-se parte oficial do trabalho desenvolvido pelos grupos de apoio às gestantes do Centro de Saúde da Família Jardim Guanabara – onde Gislaine iniciou o Fotográvida – e do Centro de Saúde da Família Cachoeira Dourada, onde trabalha atualmente, ambos no Jardim Guanabara, em Goiânia.

Via de mão dupla

Gislaine, que é casada e mãe de dois filhos, conta que, apesar de ter planejado e desejado cada uma de suas gravidezes, tem poucos registros fotográficos desses momentos e proporcionar isso a outras mulheres é gratificante. “Eu me realizo nessas meninas”, compartilha.

Desde que o Projeto começou a ganhar vida, a proposta foi proporcionar um ‘dia de princesa’ à essas mulheres, “pois elas são as personagens principais daquela história”, explica. Então, para o dia do ensaio, sucos, frutas e bolos são colocados à disposição das grávidas. A maquiagem vem acompanhada de cílios postiços e o tratamento oferecido pela equipe amadora (e amável) de Gislaine, encanta a todas que passam pelo projeto.

Juliete Silva de Oliveira, de 27 anos, foi uma das grávidas que passou pelas mãos da equipe de Gislaine. Ela conta que, pela condição financeira, não poderia contratar um serviço profissional e sua segunda gestação passaria em branco nos registros, assim como a primeira. Mas que com o Projeto, ela pode se realizar. “É uma maravilha! Todos que viram, acharam muito bonito. Eu amei as fotos”, diz a jovem.

Foto: Gislaine Gonzaga
Foto: Gislaine Gonzaga

Ao lado do filho Wesley Oliveira e à espera de Julya Beatriz, Juliete posou para Gislaine e contou emocionada ao se lembrar da simplicidade, dedicação, paciência e prazer com que foi recebida e como a equipe trabalhava.

Foto: Gislaine Gonzaga
Foto: Gislaine Gonzaga

Juliete é apenas uma, entre tantas mulheres que o Projeto Fotográvida atendeu. E no que depender de Gislaine e sua equipe, ele ainda irá acolher muitas outras grávidas. “Isso é bom demais! Depois do ensaio, a mudança na autoestima vem de imediato. Elas ficam mais felizes, se acham mais bonitas, começam a se apresentar de novo para a  sociedade orgulhosas da gravidez. Começam a postar palavras de carinho. Isso é o que mais motiva a gente”, completa.

Quem o Projeto contempla

Para participar do Projeto, a grávida deve ser cadastrada, estar fazendo o pré-natal e participando dos encontros semanais dos grupos de apoio às gestantes dos Centros de Saúde Jardim Guanabara ou Cachoeira Dourada.

Gislaine, sentada à esquerda, em uma das reuniões do grupo de apoio às gestantes (Foto: Arquivo Pessoal)
Gislaine, sentada à esquerda, em uma das reuniões do grupo de apoio às gestantes (Foto: Arquivo Pessoal)

As fotos são a última etapa dessas reuniões, onde todas as grávidas participantes dos grupos são contempladas.

Como ajudar o Projeto

Apesar de estar vinculado à saúde pública, o Fotográvida não conta com nenhum financiamento público e sobrevive da solidariedade e doações de simpatizantes da causa.

Entre as despesas, estão principalmente os gastos com o lanche no dia das fotos, os cílios postiços colocados em cada uma das grávidas, e mão de obra profissional ou não.

Toda ajuda é bem-vinda, mas Gislaine pede que chegue em forma de doação material ou trabalho.

Para quem tiver interesse em colaborar com o Projeto, os telefones de Gislaine para contato são: (62) 98404-9780 ou (62) 98413-9894.

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