Em pleno século 21, onde corpos e mentes nunca estiveram tão abertos para fazer o que bem querem, elas escolheram esperar. E embora a curiosidade pelo novo, pelo outro e pela descoberta fale alto aos ouvidos, elas permanecem, insistentemente, ‘esperando’. Se não pelo casamento, pelo ‘cara’ e o momento que acreditam ser o certo para perder a virgindade.

“Como quem acredita que o corpo é a Igreja, transar por transar seria transformar meu corpo em um templo de hedonismo (dedicação ao prazer como estilo de vida) e não de Deus”, explica a fotógrafa Carolina Alves, de 22 anos. Ela deixa claro que nunca pensou no ‘papo furado’ de ‘ir para o inferno’ caso resolvesse ‘avançar o sinal’ antes do casamento. Aliás, não é o matrimônio que a impede de iniciar a vida sexual, mas sim uma vontade antiga de querer se entregar apenas a uma pessoa. Aquela em quem ela confie e a respeite. “Eu nunca quis transar com mais de um. Não pela religião, mas porque eu não tenho isso como qualquer coisa. Acho que é algo mais especial”, compartilha a jovem.

A estudante pré-vestibular, Larissa Batista, de 22 anos, também faz parte do time que encara o sexo como algo muito além do prazer. A jovem conta que o casamento sempre foi um sonho e, sexo, só depois dele. “Para mim, o ato em si, não é a felicidade, mas sim uma forma suprema de expressar a felicidade que você já sente. Ele não é anterior e, sim, posterior”, explica.

E como fica a curiosidade?

Larissa confessa que, ao assumir o voto de castidade, ela passa por aprovações diárias enquanto segue firme o seu propósito. “Eu abdico de minhas vontades, desejos e curiosidades, num aprendizado diário de domínio sobre mim. É uma escolha consciente e livre, movida por um impulso interno, e não externo. Mas, biologicamente, existe o desejo dentro de mim e, para controlar, é ‘vigiando e orando’,” diz a estudante.

Mas engana-se quem pensa que, por não ter uma vida sexual ativa, a jovem viva em uma redoma de vidro e longe de outros prazeres vigiada pelos pais. Não. Dona de si, é ela quem dita as regras sobre o próprio corpo. Já namorou duas vezes e, nem assim, achou motivo suficiente para perder a virgindade. Em contrapartida, “perdeu” o namorado. “Já tive um namoro em que o motivo do término foi o meu voto. Isso era/é um sonho meu e não do meu ex-namorado. Ele foi até o seu limite e me respeitou a cada momento”, reconhece.

Respeito é também a base do namoro de Carolina. Ela, que também já teve outras duas experiências, conta que o atual namorado sabe de sua escolha e compreende. “Não existe pressão para transar”, explica. “Acho que quando o interesse não é só físico, o sexo vem para somar e não para ser o principal ou a obsessão”, acrescenta.

Quanto ao desejo e os hormônios à flor da pele, Carolina é breve. “Tenho curiosidade, mas não acho que seja motivo suficiente, assim como nenhum outro desejo ou impulso foram”, afirma.

“Parece que ser virgem, hoje, é errado”

Elas preferem reservar a escolha a conhecimento de pessoas próximas, alegando que a decisão é motivo de piada, descrença ou desrespeito. “Parece que ser virgem, hoje, é errado ou absurdo”, explica Carolina.

Segundo ela, simplesmente por expressar sua visão sobre o sexo por um ângulo diferente, é vítima de comentários e atitudes preconceituosas. Quando mais nova, ela conta que, por várias vezes, foi dispensada por alguns caras quando souberam que ela era virgem e, mais recentemente, através das redes sociais, sofreu assédio quando confessou a escolha para um ‘pretendente’. “Ele passou a dedicar horas tentando me convencer a perder a virgindade, com ele, de uma forma muito invasiva, porque ele tinha tesão nisso (virgindade)”, compartilha.

Outro ponto que causa desconforto em Carolina é a desconfiança sobre sua opção. “A maioria das pessoas não acredita que uma menina de 22 anos, que viaja e mora sozinha, ou qualquer outra coisa que eu possa parecer, seja virgem, mas eu não perco tempo tentando convencer”, explica.

Para Larissa, as coisas também não são fáceis. A estudante compartilha que, sempre quando alguém fica sabendo de sua decisão, os conselhos e ‘apostas’ sobre sua virgindade vêm aos montes. Alguns pensam que, para Larissa, seguir virgem seja um martírio. Outros apostam que assim que ela entrar na faculdade, o pensamento vai mudar. Tem gente ainda que acredita que não ‘aconteceu’, porque ela não encontrou um ‘cara experiente’. E, ainda, precisa lidar com piadinhas como ‘já está passando da hora’.

“Sinceramente, se eu morrer virgem, meu lado carnal vai achar horrível, porque minha curiosidade, minha libido e vontades não terão sido saciadas, mas meu espírito vai ter vencido essa luta. Para mim, isso basta”, completa.

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