Comportamento obsessivo com a alimentação preocupa profissionais da saúde

A busca obsessiva e cada vez mais comum por uma alimentação saudável se tornou uma preocupação para os nutricionistas. Ortorexia é o nome utilizado por esses profissionais para caracterizar quem possui um excessivo cuidado com sua dieta alimentar. Trata-se de pessoas que costumam basear suas alimentações em uma filosofia naturalista. Apenas itens naturais e orgânicos, livres de corantes, gorduras trans e conservantes são aceitos.

Nesta ditadura de um padrão de vida saudável que não necessariamente tem a ver com estética, alimentos se tornam vilões da noite para o dia e, de repente, não sabemos mais se precisamos cortar o glúten e a lactose. Com isso, vivemos com uma culpa constante por comermos aquilo que achamos que não faz bem ou que engorda. Essa guerra que travamos com a comida, objetivando esse novo estilo de vida, também já tem nome: é o terrorismo nutricional.

A nutricionista Andressa Pereira acredita que o equilíbrio é o verdadeiro segredo para uma vida saudável.
A nutricionista Andressa Pereira acredita que o equilíbrio é o verdadeiro segredo para uma vida saudável.

Toda essa realidade, de acordo com a nutricionista esportiva Andressa Pereira, advém, em partes, pela propagação desse comportamento obsessivo com a alimentação viabilizado pela mídia. Afinal, o mundo vive, atualmente, em uma explosão de influenciadores digitais. Dentre os mais populares estão aqueles ortodoxos da vida saudável. Mostrando seus corpos impecáveis e um estilo de vida que até parece inalcançável para os meros mortais, eles contam suas dietas, o que comem e onde comprar. Assim, eles influenciam seus seguidores que acabam se esquecendo que cada pessoa tem um metabolismo diferente.

Por este motivo, a nutricionista ressalta a importância de os veículos de comunicação responsáveis transmitirem informações que possam conscientizar as pessoas sobre esses hábitos da forma correta. Talvez você seja uma ortoréxica e não tenha coragem de assumir e buscar um tratamento (sim, existe!). Talvez você tenha sofrido com o terrorismo nutricional. Ou talvez você seja somente alguém que quer ajudar outras pessoas a lidarem com esses problemas. Pensando nisso, a Gina trouxe para você, leitora, a íntegra da entrevista concedida ao blog pela nutricionista Andressa Pereira, que explicou cada detalhe destas questões.

Gina entrevista

O que é ortorexia?

Andressa Pereira: A ortorexia evidencia-se por um comportamento alimentar extremamente saudável praticado de forma obsessiva. Indivíduos com ortorexia nervosa se preocupam excessivamente com a alimentação saudável, dedicando grande parte do dia (mais de três horas) na preparação dos alimentos, sempre preferindo os orgânicos e evitando produtos industrializados, com conservantes, corantes, açúcar, gordura, sal e tudo que acreditam ser prejudicial à saúde.

Qual a diferença entre a ortorexia e outros distúrbios alimentares, tais como a anorexia e bulimia? 

AP: Pessoas com transtorno alimentar, como a anorexia e a bulimia, são preocupadas com a perda de peso, com a imagem corporal e com a quantidade de alimento que ingerem. Já na ortorexia a preocupação não é com a quantidade de alimento e sim com a qualidade, o tipo do alimento. O foco na ortorexia é conseguir uma alimentação considerada perfeita, um corpo saudável e, nem sempre, a imagem corporal.

“Outro sinal é a preocupação exagerada com a qualidade nutricional das refeições, deixando de lado o prazer que envolve o ato de comer”

Quais são os primeiros sinais deste transtorno? 

AP: Normalmente pessoas que desenvolvem a ortorexia iniciam com a vontade de cuidar da saúde, melhorar a composição corporal, como muitos fazem. A diferença é que, nessas pessoas, a alimentação passa a ser prioridade. Um dos sinais é o isolamento social. Muitos deixam de sair ou de se divertir para conseguir manter uma dieta. Outro sinal é a preocupação exagerada com a qualidade nutricional das refeições, deixando de lado o prazer que envolve o ato de comer. Sentem-se completamente satisfeitas quando conseguem comer o alimento certo. Indivíduos com ortorexia tendem a ser organizados e detalhistas.

Quais os efeitos e como deve ser tratada? 

AP: Os ortoréxicos priorizam a alimentação extremamente saudável, mas isso não garante uma saúde perfeita. Como a alimentação deles tem muitas restrições, pode haver deficiência de alguns nutrientes, como o cálcio e o ferro, resultando em anemia, além de osteoporose. Em contrapartida, pode haver também excesso de vitaminas. Outro ponto importante é que os ortoréxicos podem desenvolver problemas cardiovasculares, já que excluem o sal da alimentação, afetando, assim, o funcionamento da bomba de sódio e potássio e ocasionando oscilações da pressão. No âmbito psicosocial, também há efeitos, pois os ortoréxicos tendem a se isolar e apresentam elevados níveis de ansiedade. A ortorexia deve ser tratada por uma equipe multidisciplinar, composta por médico, psicólogo e nutricionista. Como os ortoréxicos são preocupados com a saúde, tendem a responder bem ao tratamento.

“Nas redes sociais podemos perceber cada vez mais blogueiras, modelos, postando as dietas, o que comem, onde comprar, etc. Muitas vezes por mídia e não por saúde”

Na sua opinião, o que tem gerado o aparecimento deste tipo de distúrbio? Qual o papel de modelos, blogueiras, youtubers, etc. nisso?

AP: O crescimento das redes sociais, principalmente o Instagram e o Snapchat, gerou um bombardeio de informações, principalmente relacionado à alimentação. As pessoas hoje têm muito mais acesso a essas ‘dicas’ de dieta, aos conselhos errôneos de nutrição. A ortorexia inicia em uma simples escolha de se alimentar melhor até que se torne uma obsessão. E nas redes sociais podemos perceber cada vez mais blogueiras, modelos, postando as dietas, o que comem, onde comprar, etc. Muitas vezes por mídia e não por saúde.

Várias pessoas começam a imitar o que esses ‘famosos’ comem, mesmo sabendo que cada pessoa tem um metabolismo, uma rotina e uma composição corporal. Alguns estudos já discutem o aparecimento da ortorexia devido à influência da mídia e não só no aparecimento, mas também na promoção desse comportamento. É importante que os meios de comunicação passem informações corretas e conscientes, evitando o uso de táticas somente para promoverem seus produtos.

Qual o papel dos profissionais ligados à saúde/estética (nutricionistas, educadores físicos) nesta questão? Você acredita que alguns têm contribuído para a propagação deste distúrbio?

AP: Nos dias de hoje, o ‘corpo perfeito’ é cada vez mais cobrado. Cabe aos profissionais de saúde, o trabalho de divulgar que o ato de comer bem não está relacionado somente com a busca de uma boa saúde e com a prevenção de doença, mas também está relacionado a um comportamento social, engloba as esferas biopsicossociais nas quais os indivíduos estão envolvidos. O que muitos não sabem é que justamente os profissionais da área da saúde -nutricionistas, médicos, estudantes de medicina e nutrição – são grupos vulneráveis ao comportamento ortoréxico. São pessoas cobradas a terem um corpo e uma alimentação perfeitos e, geralmente, são muito criticados se estão fora do padrão estabelecido pela sociedade. Isso gera profissionais com ortorexia que podem acabar transmitindo aos seus pacientes esse comportamento.

O que é terrorismo nutricional?

AP: O termo terrorismo nutricional ficou conhecido após a engenheira agrônoma e nutricionista Shopie Deram utilizá-lo e resume, justamente, esse momento que estamos vivendo em que, ou um alimento é bom para todos ou é vilão, não existe meio termo. As pessoas estão perdidas, não sabem se podem comer um alimento ou outro, se determinada comida engorda ou emagrece, se precisam cortar o glúten e a lactose. Isso tudo gera um terrorismo relacionado à comida e o ato de comer fica ligado à culpa, ocasionando uma guerra com a comida.

“A palavra chave é equilíbrio”

Quais dicas você sugere para que uma pessoa possa ter uma vida saudável sem viver esses hábitos com obsessão?

AP: A palavra chave é equilíbrio. Como citado, a ortorexia pode causar danos na nossa saúde, mostrando que preocupar e dedicar 100% a uma dieta não é a saída. Temos que cuidar da nossa alimentação, mas não a ponto de ser o foco principal da vida, pois isso também gera doenças. Não podemos escolher um alimento apenas pelo valor nutricional, mas também pela influência cultural, social e econômica. A alimentação não é apenas um ato biológico, mas também comportamental.