Muita renda, cortes precisos e sensualidade na medida certa. Uma dupla jovem de estilistas goianas, Luma Kinasz e Beatriz Bragatto, decidiu fugir do combinado ‘perfeito’ de modelos altas e magras e apostou na diversidade para iniciar carreira no mundo da moda.

Beatriz Bragatto e Luma Kinasz (Foto: reprodução Instagram)
Beatriz Bragatto e Luma Kinasz (Foto: reprodução Instagram)

As duas assinam a marca de lingerie ‘To The Moon and Back Again’ e decidiram levar à passarela para estrelar a primeira coleção, enquanto profissionais, de sua marca, modelos pouco convencionais e quase nunca vistos, em destaque. Os corpos falavam por si só. Haviam cadeirantes, manequins bem acima do 36, corpos tatuados, membros amputados e, em meio às fêmeas, um macho que se traveste, Vinicius Fiuza, e assume a identidade de Vânia Foratto.

“A gente queria mostrar, também, que todo mundo que se sente mulher pode e deve agir assim”, explica a designer de moda Luma Kinasz, de 23 anos. Ela reflete sobre a triste realidade de violência que os travestis, transexuais e a classe LGBT é acometida diariamente. De acordo com ela, a ideia de trazer a diversidade para o desfile foi convidar o público a refletir sobre os padrões ditados pela moda.

O desfile, que levou ao contato do público um novo olhar sobre a moda, fez parte do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) desenvolvido pelas meninas para a Faculdade de Moda da Universidade Federal de Goiás (UFG). A escolha pelo tema, explica a estilista e fotógrafa Beatriz Bragatto, de 23 anos, veio a partir de reflexões da dupla esobre a preocupação social.

Luma e Beatriz com suas modelos. (Foto: divulgação)

As duas já haviam feito trabalhos voluntários e conviviam com pessoas portadoras de necessidades especiais. Promover a inclusão desse público no mercado da moda seria uma forma das duas continuarem o trabalho iniciado outrora, alinhado à profissão a qual escolheram. “Na pesquisa (do TCC), a experiência e o convívio que tivemos com essas mulheres, nos mostraram muitas coisas que precisam ser repensadas. Os portadores de algum tipo de deficiência são pessoas que também consomem. É preciso dar mais atenção a eles, criar mais roupas funcionais, lojas e preços acessíveis para, então, terem mais representatividade, também, na publicidade”, reflete Beatriz.

Convite aceito, autoestima elevada

Letícia Silvério (Foto: Reprodução/ Instagram)
Letícia Silvério (Foto: Reprodução/ Instagram)

A publicitária Letícia Silvério, de 21 anos, também foi uma das modelos escolhida por Luma e Beatriz para desfilar a coleção. A jovem não tem a perna esquerda, em consequência de um câncer no joelho que teve aos cinco anos de idade, mas conta que a ausência do membro não foi motivo para recusar o convite feito pelas designers. “Eu achei muito legal elas não quererem usar o padrão: uma mulher magrinha e alta. Tipo, eu não tenho a perna, eu uso 42, ‘G’ e ‘GG’. Eu não estou no padrão! Nem só pela questão da perna, mas de corpo mesmo. Eu achei o máximo! Muito bacana! E eu me senti a ‘Giselle’, plus size”, conta a publicitária.

Letícia recorda que a falta da perna nunca a incomodou, visto que a amputação foi uma decisão consciente da jovem. “Eu passei por toda aquela parte da quimioterapia, mas meu joelho teve que ser retirado cem por cento. Eu fiquei com minha perna, mas ela não dobrava. Aí, dos cinco aos 14 anos, eu tive que fazer tratamento ortopédico, usar tala, fazer enxerto, um monte de coisa cansativa e que tinha pouco resultado. Foi quando eu achei melhor amputar. A amputação foi uma opção minha”, explica.

Apesar da boa autoestima, a publicitária, no entanto, revela que seu maior desafio era encarar as medidas acima dos padrões. “Eu nunca fui de usar uma lingerie e ficar me olhando no espelho: ‘nossa, to sexy”. Na verdade, eu me olhava e pensava: ‘nossa, que tribufu! Que gorda!’. Então, depois do ensaio e do desfile, eu passei a olhar o meu corpo de uma maneira diferente. Foi bom para mim”, confessa Letícia.

A forma com que as modelos se enxergavam foi, também, outro ponto levado em consideração pelas designers no momento de produzir o desfile. “É muito fácil você falar o que a modelo vai usar e ela aceitar. Mas o que a gente queria era que elas se sentissem bonitas, confortáveis e confiantes com as peças”, relembra Luma. A designer conta ainda que, para deixar as modelos mais seguras e prontas para a passarela, ela e a parceira, Beatriz, desenvolveram longas conversas de encorajamento e empoderaram as meninas explorando a beleza de cada uma através de fotos feitas anteriormente ao desfile.

“Depois que fizemos a produção, elas ficaram encantadas! Disseram que nunca tinham se sentido tão bonitas, que nunca tinham passado por isso antes. Foi muito gratificante para nós!”, diz Beatriz.

O trabalho desenvolvido pela dupla junto às modelos, criou uma relação de confiança suficiente para que elas quisessem vestir a camisa da marca e darem a melhor versão de si mesmas. A publicitária Letícia, inclusive, relembra que as designers, em momento algum, foram invasivas e deixaram a cargo dela decidir se queria subir à passarela vestindo a prótese ou não. “Eu disse para elas: ‘se eu desfilar com a prótese, vão perceber que eu tenho alguma coisa, afinal, eu manco. Mas eu acho que se eu for sem a perna, o impacto vai ser maior’ explica a publicitária. “Não que eu quisesse chocar negativamente, mas eu queria mostrar para as pessoas que, apesar de não ter uma perna, eu desfilo mesmo assim, ‘linda e maravilhosa’”, complementa.

O desfile

Uma a uma, as modelos iam se apresentando ao público. E, na parte de trás da cortina, enquanto se preparava para entrar em cena, Letícia conta ter escutado a reação da plateia. Assim que deu o primeiro passo, a publicitária diz ter sido tomada por uma forte emoção ao sentir o calor do público. “A plateia se exaltou muito! Foi nítido perceber a felicidade do pessoal. Quando eu ia passando, eu olhava para as pessoas e sorria, e eu via a alegria do povo empolgado comigo, gritando… Gente que eu nem conheço, sabe?”, relembra Letícia.

Luzeni Ribeiro e Letícia Silvério (Foto: divulgação)

Para ela, receber o carinho do público foi algo muito especial. Ela conta que, ao terminar o desfile, foi se encontrar com os pais e alguns amigos que haviam ido prestigiá-la na passarela. Contudo, um momento que deixou Letícia especialmente emocionada foi quando uma mãe pediu  para que ela tirasse uma foto com a filha dela. “Quando eu fui ver, a menina era cadeirante, sabe? E eu vi que ela estava feliz por me ver ali. Acho que ela viu que não é essa limitação que a vai impedir de desfilar e se impor na sociedade como qualquer outra pessoa”, enfatiza emocionada Letícia.

Motivo de orgulho para as idealizadoras do projeto que apostaram na moda inclusiva para deixar sua assinatura no mundo. “Eu entrei na moda com a visão além da superficial, para fazer algo que fosse social, que ajudasse as pessoas e desse visibilidade a elas”, explica Luma. Beatriz completa: “Nós só queremos incentivar mais profissionais a fazerem produtos para o mercado que atenda a necessidade dessas pessoas. Queremos abrir um olhar diferente. Fazer com que mais pessoas façam o que nós fazemos e que sejam mais atenciosas”.

Luma Kinasz e Beatriz Bragatto no desfile da To The Moon And Back Again (Foto: arquivo pessoal)
Luma Kinasz e Beatriz Bragatto no desfile da To The Moon And Back Again (Foto: arquivo pessoal)

Onde encontrar as peças

Para quem quiser conhecer o trabalho das meninas e adquirir as peças da coleção, o Instagram da marca é @tothemoonbackagain. Os pedidos podem ser feitos pelo WhatsApp: (62) 98226-1333 e as peças também são encontradas na Casulo Moda Coletiva, na Rua 1.136, Setor Marista, em Goiânia-GO.

Leia outros textos da autora:

Iniciativa transforma grávidas de baixa renda em modelos por um dia

Estar na moda não é mais problema para as gordinhas

5 cuidados que você deve ter com sua pele neste inverno