Não importa se o cabelo é trançado ou cacheado, e sim, que a beleza afro voltou com tudo como símbolo de libertação e atitude das mulheres negras

Manoela Augusta, publicitária (foto de Marcello Dantas).
Manoela Augusta, publicitária (foto de Marcello Dantas).

“Porque você não alisa?”, “entra água no seu cabelo?”, “quantos pentes você já quebrou?”, “você usa tranças para esconder o seu cabelo natural?”. Manoela Augusta, publicitária, especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing e Polyanna Ferreira, 27, copeira, contam que escutam essas perguntas diariamente em relação aos seus cabelos. “Minha mãe sempre fez questão de manter o meu cabelo natural e por isso, várias pessoas a procuravam para oferecer alisantes e relaxamentos, mas ela nunca aceitava. Além disso, eu sempre era alvo de piadas na escola e ainda sou, porque as pessoas pensam que o cabelo crespo é duro e difícil de cuidar e na verdade não é”, lamenta Manoela.

Manoela Augusta, publicitária (foto de Marcello Dantas).
Manoela Augusta, publicitária (foto de Marcello Dantas).

A publicitária já usou o seu cabelo de diversas formas, como black power, trançado e acredita que muitos não conseguem entender o quanto é desrespeitosa essa insistência em mudar a estética negra. “Eu sempre tranço e destranço, não tem prazo, nem um porque, simplesmente da vontade de fazer ou de desfazer, e é algo que lembra minhas raízes, porque minha mãe trançava o meu cabelo estilo Nagô – aquela que fica grudadinha no couro cabeludo –  e eu aprendi a fazer apenas sentindo os movimentos das mãos dela na minha cabeça”, conta Manoela, que acredita que as tranças sejam uma resistência negra a um racismo que “manda” alisar, raspar e cortar. “Erroneamente algumas pessoas pensam que as tranças servem para disfarçar o cabelo crespo, mas as tranças são nossas aliadas, nossa forma de cuidar e de modificar um pouco o nosso black power. Muitas meninas usam tranças quando estão no processo de transição ( liso para crespo ou cacheado) para o uso dos cabelos naturais, até nisso as tranças nos auxiliam”, afirma.

Polyanna Ferreira, 27, copeira (foto de Raissa Karuena)
Polyanna Ferreira, 27, copeira (foto de Raissa Karuena)

Polyanna também foi alvo de piadas na escola devido ao seu cabelo natural e conta que chegou a fazer alguns alisamentos para se sentir mais bonita, até que resolveu trançá-los. “As tranças dão força ao meu cabelo, ajudam no crescimento e eu me sinto poderosa com elas”, revela. E assim como Manoela, ela trança, destrança, usa de forma natural, porém, mesmo se sentindo linda, conta que quando anda na rua,  percebe alguns olhares negativos em relação ao seu cabelo. “Os comentário sempre vão existir, não tem jeito. Eu sonho em deixar o meu cabelo estilo black power, como o da atriz Thais Araújo, mas tenho receio do que vão dizer”, confidencia Polyanna.

Manoela Augusta, publicitária e o seu lindo cabelo black power (foto de arquivo pessoal)
Manoela Augusta, publicitária e o seu lindo cabelo black power (foto de arquivo pessoal)

Manoela, que usa o seu cabelo sempre black power e às vezes trançado, conta que nem todos gostam desse estilo e sabe bem o por quê do receio de Polyanna. “Há sempre quem opine, quem goste mais de uma forma ou de outra, mas as tranças e cabelos naturais andam lado a lado. E mesmo com tudo isso, eu amo meu cabelo, assim como amo meu nariz, minha boca, pele e todas as minhas características físicas. Eu me sinto maravilhosa de qualquer forma, faço muita questão de usar o meu cabelo natural e me sinto bem com ele. Faz parte de mim”.