É Dia Internacional da Mulher e eu queria poder comemorar, mas os números não deixam

Ao longo dos meus 25 anos de vida foram muitos os “8 de março” em que eu comemorei incansavelmente ter um dia dedicado exclusivamente a nós mulheres. Nesses dias, eu me acordava entusiasmada, já sorria antes mesmo de receber os parabéns e, quando não percebida, recordava os despercebidos para que fizessem o feito. Acontece que eu cresci e me tornei uma mulher curiosa. Comecei a questionar o porquê das coisas serem como são e, como em uma mágica desfeita a carruagem virou abóbora, as ilusões foram todas perdidas quando colocadas de frente com a dura realidade que é ser mulher.

O Brasil é o quinto país no mundo onde mais se mata mulheres. O pior disso tudo (se é que tem como piorar) é saber que 50,3% desses homicídios são praticados por pessoas próximas às vítimas: pais, namorados, vizinhos, conhecidos, amigos, maridos.

Para nossas irmãs negras, ser mulher é um fardo ainda mais pesado, vez que precisam ir contra além da discriminação de gênero, a discriminação racial. Entre 2003 e 2013, o número de assassinatos de mulheres negras cresceu 54% no Brasil.

Entre os 527 mil estupros que ocorrem anualmente no Brasil, apenas 10 % deles chegam ao conhecimento da polícia. 70% desses estupros são cometidos por pessoas próximas às vítimas.

Os números não mentem. E, não. Eu não os tirei da minha “imaginação fértil”. Os dados são resultado de um levantamento feito pela Organização das Nações Unidas (ONU), onde 83 países foram analisados e tiveram seu ‘Mapa da Violência’ construído.

Francamente, o que temos para comemorar?

Eu bem que queria usar o meu vestido preferido e ’tomar todas’ com as minhas amigas, gritando ao mundo a delícia de ser mulher. Mas é que ser mulher dói.

Dói quando você se levanta da mesa do bar para ir ao banheiro e é submetida a uma chuva de olhares maldosos e palavras nojentas, partindo de bocas ainda mais nojentas. Dói ser medida pelo tamanho da sua saia. Dói quando sua empregada, que cansou de apanhar do marido e tomou coragem para deixa-lo, morre com 6 tiros nas costas vindos do ex-companheiro.

Dói a cada vez que uma mulher se cala e sofre em silêncio por medo de que o que há de vir seja ainda pior. Dói, porque a vítima pode não ser sua conhecida hoje, mas um dia será.

Dói, porque a cada vez que uma mulher se torna vítima, você pensa: “podia ter sido comigo”.

Não é fácil ser mulher. Não é fácil lidar com a discriminação e o assédio nos espaços públicos, no ambiente de trabalho, em casa. Não é fácil ter que ‘desenhar’ que quando você diz ‘não’, você não está fazendo jogo.

Não é fácil atravessar uma balada tendo mãos afoitas sob o seu corpo. A vontade de reagir é grande, mas o medo de que eles partam para a violência é ainda maior. É como lutar em uma guerra perdida.

Eu até queria terminar de escrever esse texto e ir comemorar, sem me preocupar, a delícia que é ser mulher. Mas dói só de pensar nos números.