Estamos juntas há mais de um ano. Antes mesmo de saber que estava grávida, te carreguei para cima e para baixo. Desde que você nasceu sai do seu lado por pouquíssimas horas que pareceram uma eternidade.

Na última noite iniciamos um novo processo. Te colocar no berço do seu quarto não foi nada fácil. Minha vontade era deitar na cama que fica ao lado e, assim, ao menor gesto seu eu poder acudir. Estávamos separadas por uma simples parede e nada mais. No entanto, voltei para o meu quarto e deitei na minha cama, em posição fetal, e fiquei quieta. O sono estava a milhas de distância, mesmo o corpo dando sinais claros de cansaço.

Por fim cochilei. Mas o barulho feito pelas telhas das garagens me despertou e sai fechando todas as portas e janelas que encontrei pela frente. Aproveitei para dar uma olhada em você no seu berço. Você dormia tranquilamente. Na verdade, parecia uma boneca de porcelana envolta nos lençóis brancos e protegida pelo mosqueteiro rosa de ursinhos.

Voltei para o quarto e me recolhi a minha insignificância. Afinal, o berço ao lado da minha cama estava vazio e minha Cecília estava descansando no seu quarto sem problema algum. Não sei quanto tempo demorei para adormecer, só sei que acordei novamente às 2h20 e levantei. Tinha esquecido de te cobrir com o edredom e colocado apenas um lençol de algodão.

Ao ver que estava tudo bem contigo e devidamente coberta, voltei para o quarto e, dessa vez, sucumbi ao sono. Passada algumas horas, acordo com Felipe saindo do quarto e indo te buscar. Você tinha acordado e, como de costume, não chorou, apenas mexeu as perninhas e colocou as duas mãos na boca.

Seu papai voltou para o quarto contigo no colo. Em um impulso, acendi a lâmpada. Mas devido a claridade, você fechou os olhinhos. Estranhou a forte luminosidade. Felipe te entregou a mim e, naquele momento só nosso, seguimos o nosso ritual: você mamou, arrotou (o que é um milagre) e adormeceu.

No entanto, eu fui covarde e não consegui te colocar de volta para dormir no seu quarto. Te deixei no berço que fica ao lado da minha cama. Minha pobre desculpa para isso era que você podia precisar de mim novamente. Ledo engano. Você adormeceu e só acordou hoje. Enquanto eu fiquei te admirando através da telinha do seu bercinho.