Para um ansioso, ter com quem contar é fundamental

O corpo latejava de tanta dor. A insônia tornou-se minha principal companhia. Faltava disposição para o trabalho, para as festas, para a família, os amigos e meu namorado. Eu, que sempre fui de ostentar sorrisos e felicidade, me vi mergulhada em uma onda de tristeza que fez morada em minha cabeça, tomou conta do meu corpo todo e me deixou em uma condição de não saber quem mais eu era (ainda não me encontrei). Até que um dia meu corpo não aguentou o reflexo disso tudo e pediu socorro.

Era 29 de dezembro de 2016. Eu estava no trabalho. Entre um texto e outro, meu coração disparou. Angustiada, corri para a copa para beber água e tentar me recompor. Em vão, voltei para minha mesa e tentei me concentrar nas palavras. Elas fugiam. Os pensamentos pareciam alucinações que chocavam entre si. Eu tremia. Fiquei tão perdida, que só foquei nos ponteiros do relógio para que se apressassem e me permitissem sair dali. Ao entrar no carro, caí no choro. Soluçava tanto, que nem sei explicar como cheguei em casa.

Eu vivi uma crise intensa de ansiedade. A primeira de muitas que viriam. Por não saber o que estava acontecendo, acabei me interpretando mal e julguei estar enlouquecendo.

Até que minha mãe compartilhou minhas crises com uma psicóloga amiga da família, que conversou comigo, me diagnosticou com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e me indicou iniciar o tratamento com uma psicóloga gestalterapeuta.

Tomei coragem, que sempre falta, e comecei as sessões. Deixei de lado o sorriso que todos que me conhecem já esperam, e iniciei um mergulho profundo dentro de mim mesma, aonde tento descobrir coisas que eu achava saber decorado. Quem sou eu? Do que eu gosto? Será que eu quero mesmo fazer isso ou aquilo? De onde nasce essa tristeza que se instala na minha cabeça e não me permite pensar em mais nada?

Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo

O transtorno de ansiedade é mais comum do que você, que não é ansioso, imagina. Um levantamento feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS) revelou que o Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com TAG em todo o mundo. Segundo a pesquisa, pelo menos 9,3% dos brasileiros estão com a doença mental.

Entretanto, a psicóloga clínica Nathana Monteiro adverte que “a ansiedade é uma reação normal do ser humano diante de situações que podem provocar medo, dúvida ou qualquer tipo de expectativa”, tornando-se preocupante apenas quando o “sentimento permanece por um longo tempo e atrapalha as atividades do dia a dia, a convivência com os amigos, familiares, trabalho, dentre outras coisas”, explica.

De acordo com ela, diversos são os fatores que influenciam uma pessoa a ter a doença – que não faz distinção de classe social, faixa etária, ou qualquer credo.

Poucos são os casos em que o fator genético é o precursor. Segundo Nathana, as principais motivações nascem a partir do contexto cultural em que o indivíduo está inserido. Problemas financeiros, relação familiar conflituosa, um ambiente de trabalho hostil e o ritmo frenético ao qual estamos inseridos são os principais desencadeadores.

“Outro ponto importante é o poder de persuasão que a mídia exerce sobre as pessoas. Não conseguir acompanhar o ritmo torna-se um fator de ansiedade”, recorda a especialista.

Tem cura?

Apesar de aparentar desesperador o TAG não ter cura, diagnosticado com antecedência e com o tratamento adequado, o ansioso pode estabelecer uma vida saudável. “Através do acompanhamento psicoterápico (psicólogo) e, em alguns casos, medicamentoso (psiquiatra) é possível alcançar bom resultado para o controle dos sintomas”, explica Nathana.

Segundo ela, o tempo de melhora varia de paciente para paciente e dependerá do nível de ansiedade em que ele se encontra: leve, moderado ou grave.

Como parte do tratamento, a especialista indica aos ansiosos procurar hábitos saudáveis que vão desde uma alimentação controlada, à prática de atividades físicas, reservando momentos para o lazer, onde temas estressantes não tem vez.

Ter com quem contar é fundamental para o tratamento de uma pessoa com TAG

Do dedo do pé ao fio de cabelo, quando a crise vem o corpo inteiro se contorce. Ansiedade dói e todo mundo precisa saber disso. E se ‘empatia’ é a palavra do momento, empregá-la com um amigo, companheiro, familiar ou conhecido ansioso é fundamental para que ele se sinta à vontade para expressar seus sentimentos mais ocultos sem achar que será julgado por isso.

“Ninguém diz ‘você é míope demais’ para uma pessoa que não enxerga bem, nem ‘você é diabético demais’ para uma pessoa que tem diabetes. Por esse motivo, uma pessoa com nível de ansiedade alta fica extremamente irritada quando alguém diz ‘você é ansioso demais’. Assim como ninguém é míope ou diabético porque quer, ninguém é ansioso porque quer”, alerta Nathana Monteiro.

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