A primeira pergunta de qualquer pessoa sensata ao me ver falar sobre mochila e viagens sozinha ou apenas na companhia de uma amiga é se não tenho medo. Afinal, uma mulher em um lugar completamente diferente, cultura diferente, sem dinheiro, sem quase nada planejado ou suporte de empresas de viagem é algo perigoso. É de dar medo.

A resposta é: “sim, eu fico com muito medo”.

Mas existem outras situações que me fazem temer. Como, por exemplo, avião. Para ser sincera, o medo de avião é além. Diz mais sobre pânico, pavor!

Ainda assim, eu fico mais apavorada com outras possibilidades. Como…

Ver a vida passar somente por uma tela. Essa me tira o sono.

De ter feito aquele clichê de “sobreviver e não viver”.

De ter conhecido mundos dentro do nosso planeta apenas por filmes de super-heróis ou reportagens do “Globo Repórter”.

De não ter visto de perto as criações inacreditáveis da natureza e o brilhantismo da humanidade.

De não ter sentido nada disso.

De não encher os olhos de lágrimas ao ver beleza em sua forma mais natural.

De não sentir a energia que enche o corpo.

De não chorar ao ver “Monalisa” de perto.

De não rir sem parar ao pisar no Parthenon. (Ou será que foi porque eu presenciei o significado do ditado “falando grego” em uma peça de teatro?)

Medo de não respirar bem fundo e pensar “eu consegui”.

De não ter fotos maravilhosas e sorrir ao vê-las. Não pela quantidade de “curtidas” que posso receber, mas pela história por trás de cada uma delas. Ou ver fotos de outras pessoas e não ficar feliz por entender exatamente qual a sensação daquele momento.

De ver as pessoas ao seu redor gritando, desesperadas, para te avisar que, enfim, estava nevando.

Tenho medo de não gargalhar sozinha ao ficar tão encantada com a neve e aquela cena que mais parecia ter saído de um filme. Não teve foto, não teve boneco de neve. Só eu e aquele instante incrível.

Medo de não ficar loucamente agradecida pelo motorista parar no meio do nada para eu tirar uma foto com a neve, porque depois de dias no universo paralelo do encantamento, eu, enfim, havia acordado. E ver, pelo menos, outras 30 pessoas aplaudirem agradecidas, só por mim!

Tenho medo de não ficar perdida porque não tive a chance de ler o mapa de cabeça para baixo. (Ju, você conheceu a rua em Roma com seu nome graças a isso. Então, para de reclamar. Na nossa próxima viagem vai ter mapa, sim!).

Tenho medo é de não poder conhecer pessoas maravilhosas com coração aberto para pegar no meu braço e me levar ao meu destino, porque eu não entendo nem uma palavra do que ela diz. Ou não pegar uma carona e não me hospedar praticamente de graça.

Tenho medo é de não ver histórias reais.

De não sentir o novo.

De não me transformar e não me conhecer.

De ser a mesma pessoa sempre.

De ter apenas sonhado.

De não descobrir que, mesmo sem asas, é possível voar.

As pernas podem até “travar” (e isso vai ser outro post), mas o medo de não ter sentido a emoção de “pular” vai ser sempre maior.

Porque meu medo, no fim, é tudo sobre o que pode, de fato, deixar de acontecer.

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