O ator sessentão José Mayer, acostumado a estampar capas de revistas e jornais, e a interpretar garanhões na TV brasileira, mudou de papel na manhã desta sexta-feira (31). Ele foi acusado pela figurinista Susllem Meneguzzi Tonani, de 28 anos, por assediá-la sexualmente durante os bastidores de uma novela. As investidas, segundo o relato da figurinista publicado em forma de desabafo no blog ‘Agora é Que São Elas’, da Folha de São Paulo, começaram tímidas, mas terminaram com a mão do ator em sua genitália.

“Essa história de violência se iniciou com o simples: ‘como você é bonita’. Trabalhando de segunda a sábado, lidar com José Mayer era rotineiro. E com ele vinham seus ‘elogios’. Do ‘como você se veste bem’, logo eu estava ouvindo: ‘como a sua cintura é fina’, ‘fico olhando a sua bundinha e imaginando seu peitinho’, ‘você nunca vai dar para mim?’”, diz parte do texto.

“Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo”, lamentou Susllem.

O caso, entretanto, apesar de absurdo não é isolado. Há muitos ‘Josés Mayers’ por aí. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em todo o mundo, mais de 50% das mulheres economicamente ativas já sofreram algum tipo de assédio sexual no ambiente de trabalho.

Para os desavisados, como José Mayer, a prática tornou-se crime no Brasil em 2001, quando ficou estabelecido pena de detenção entre um e dois anos para quem praticar o ato. No entanto, como percebe a advogada Angela Caroline Garcia da Silva, a grande questão é a vítima realmente perceber que está sendo assediada, vez que a prática passa muitas vezes despercebida e disfarçada de “brincadeira” (de mau gosto, com toda certeza).

“Vejo muitos casos que não passam nem na porta da delegacia. A maioria das vítimas se cala para manter o emprego, por vergonha, ou por, de alguma forma, sentir-se culpada pelo assédio”, alerta a advogada.

Culpa, inclusive, foi um dos assuntos abordados por Susllem em seu desabafo. Desde que foi invadida por José Mayer, a figurinista viveu dias intensos enquanto entre um set e outro de filmagem literalmente fugiu do ator. “Foram meses envergonhada, sem graça, de sorrisos encabulados. Disse a ele, com palavras exatas e claras, que não queria, que ele não podia me tocar, que se ele me encostasse a mão eu iria ao RH. Foram meses saindo de perto”, escreveu Susllem.

A figurinista conta ainda que tentou sensibilizar o ator lembrando-o que ele era mais velho que o pai dela e que ele tinha uma filha da idade dela. Em vão.

Em seu desabafo, Susllem lamentou ter que ficar repetindo para si mesma, para se lembrar e se convencer, de que não tem culpa pelo que aconteceu.

“Tenho de repetir o mantra: a culpa não foi minha. A culpa nunca é da vítima. E me sentiria eternamente culpada se não falasse. Precisamos falar. Precisamos mudar a engrenagem”, escreveu.

Como José Mayer, existem muitos outros homens por aí que se aproveitam de posições privilegiadas, fama e dinheiro para assediar moral e sexualmente mulheres no ambiente de trabalho.

Como escreveu Susllem, é hora de “mudar a engrenagem”. Precisamos dizer não. Precisamos falar alto, dar nomes aos bois. Se não nos unirmos e compreendermos que estes atos de opressão e assédio foram velados durante anos e anos, estaremos contribuindo para a naturalização do absurdo e nos enganando. Deixando nossas filhas, netas e bisnetas, e todas as mulheres que vierem depois de nós, a mercê de homens como Mayer.

Como saber se você está sendo vítima de assédio sexual e procurar ajuda

De acordo com a advogada Angela Carolline Garcia da Silva, caracteriza-se por assédio sexual toda e qualquer atitude de alguém hierarquicamente superior, se valendo desta condição, constranger seus subordinados com o objetivo de obter favores sexuais. Segundo ela, pode ser considerado abusivo tudo o que tiver conotação sexual, desde ‘brincadeiras’ e ‘cantadas’ a atitudes mais invasivas como forçar a pessoa a um beijo ou atos sexuais sob a ameaça de demissão, ou mesmo com a promessa de uma promoção. “O determinante para ser considerado assédio sexual é o quanto a vítima se sentir coagida”, explica Angela. Se o ato for de comum acordo, entretanto, não se caracteriza crime.

A advogada aconselha que em casos de assédio sexual, a vítima tente falar com o agressor de forma a acabar com a intimidação e, ainda, procurar a ajuda do departamento de recursos humanos para que eles possam tomar as devidas providências. No entanto, se a vítima perceber que o agressor não irá recuar, ela pode e deve ir direto a uma delegacia registrar um boletim de ocorrência.

“Para registro do boletim são necessárias provas do assédio, que podem ser desde uma gravação de celular, até depoimentos de terceiros como testemunha”, explica a advogada.

“Infelizmente, apenas a palavra da vítima não é muito considerada. Principalmente por nosso judiciário, que ainda é patriarcal e em sua maioria machista”, lamenta.

No início da noite, José Mayer se pronunciou sobre a acusação de Susllem dizendo que “as palavras e atitudes” das quais ele fora acusado pertencem a seu personagem Tião, da novela ‘A Lei do Amor’. Segundo a nota divulgada à imprensa, Mayer disse respeitar as mulheres e seu ambiente de trabalho.

Leia a nota na íntegra:

 “Respeito muito as mulheres, meus companheiros e o meu ambiente de trabalho e peço a todos que não misturem ficção com realidade. As palavras e atitudes que me atribuíram são próprias do machismo e da misoginia do personagem Tião Bezerra [da novela A Lei do Amor], não são minhas! Nesses 49 anos trabalhando como ator sempre busquei e encontrei respeito e confiança em todos que trabalham comigo”.

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